• Manifesto Por Mais Sinceridade Na Hora Do Pé  Na Bunda
  • Manifesto Por Mais Sinceridade Na Hora Do Pé


    Na Bunda


    Sofro daquela síndrome de querer agradar a todo mundo, sabe? A gregos e troianos, a Deus e ao diabo, ao Molejo e ao Iron Maiden. Mas não dá. Às vezes a vida coloca a gente numas sinucas de bico, e deixar o taco encostado na parede só para não ver ninguém chorando a derrota não parece uma alternativa sensata. Então a gente tem que tomar alguma providência, em vez de um simples gole de cerveja, e ter consciência de que assim é a vida e de que alguém não vai sair muito feliz daquela história toda.

    Se tem uma providência a tomar que me deixa desconfortável é dar fora em alguém. E é uma coisa inevitável: se você tem o mínimo de vivência e se a sua peneira amorosa e sexual não estiver quebrada, mais dia, menos dia, você vai ter que dar um fora. Não que eu seja a gostosa do Sumaré – muito longe disso –, mas tenho certa experiência nessa brincadeira de quebrar corações – “sou legal, não estou te dando mole” é a frase que vai estar escrita no meu epitáfio. E vou contar um segredo pra humanidade: dói mais em mim do que em vocês, queridos.

    Mas quem foi que disse que passaríamos por esse mundão imunes à dor? Ninguém. Cair no asfalto dói, perder alguém querido dói, ressaca dói. E aposto uma rodada de cerveja que você não deixou de andar de bicicleta, de se encantar com as pessoas ou de beber vinho só para evitar a dor. Então qual é o sentido de mentir na hora de dar um fora? O problema não é você, sou eu; você é a pessoa certa na hora errada; estou muito focado(a) no trabalho esses tempos. Tudo eufemismo para uma expressão de quatro palavras e muitas lágrimas: eu não quero você. Não quero. Não quero acordar um dia sequer ao seu lado. Não suporto o seu hábito de achar que trabalho vem antes do prazer. Não tenho vontade de transar com você. Não te acho interessante. Ou bonito. Ou inteligente.

    Ou simplesmente você não faz o meu tipo. É um cara legal, mas não rola atração. Porque aí, as coisas ficam claras. Sem margem para expectativas – se eu não sou o cara certo pra ela hoje, quem sabe se eu tentar amanhã? Sem margem para dúvidas – se o problema está nela, o que eu posso fazer para ajudar? Sem margem para contestação – sei que você está focada no trabalho, mas prometo que não vou atrapalhar. Aliás, sinceridade deveria constar na grade curricular do ensino fundamental. Porque o que tem de gente enganando os outros por aí não é brinquedo, não.

    Se enganando também. E aí a gente entra na segunda – e ainda mais trágica – modalidade de pé na bunda: o ponto final. Que muitas vezes acaba sendo convertido em vírgula por pura comodidade. O amor já não anda mais às mil maravilhas. Mas se eu terminar, sobre qual peito vou deitar a cabeça nas tardes chuvosas de domingo? O sexo também não excita mais. Mas antes uma vida sem orgasmos do que ter que sair à procura de novos corpos. A convivência é mais discórdia do que paz. Mas é tão bom ter alguém pra brigar de vez em quando, né? E assim se criam zilhões de justificativas sem o menor sentido para evitar o inevitável. Prefere-se ser infeliz a dar um pé na bunda.

    E se a sua preocupação é não sair de vilão, acredite: não há maior ato de heroísmo do que se permitir ser feliz. E permitir que o outro também corra atrás dessa danadinha da felicidade. Não há egoísmo maior do que mentir para si próprio e para o outro por simples medo de encarar as consequências de um término. Que, convenhamos, não vai ser nada além da cara feia do outro, uns porres, uns potes de sorvete e umas lágrimas desperdiçadas durante a madrugada.


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