• Sobre a arte de colocar o mundo  no mudo e ouvir seu coração
  • Sobre a arte de colocar o mundo


    no mudo e ouvir seu coração


    Mais difícil do que calar todas as vozes do mundo é apurar os ouvidos para sentir o silêncio do coração. Abrir a janela da nossa essência e deixar a alma perfumar com verdades a nossa travessia exige calma, clareza e claro, tempo. O processo de autoconhecimento é geralmente árduo e ele fica ainda mais difícil quando o resto do mundo decide intervir pensando que sabe o que é melhor pra gente. A interferência externa começa em pequenos detalhes, modestos recortes de delicadeza do cotidiano que muitas vezes se perdem em meio ao turbilhão de informações que cruzam nosso caminho e ouvidos. Nossas roupas, nossas atitudes, nossas escolhas, absolutamente tudo é motivo de julgamento. Quando menos se espera estamos totalmente dependentes da opinião do outro, de mãos e pés atados perante uma página em branco da nossa vida que está prontinha para ser escrita, mas que a gente simplesmente não consegue ter o controle da história que será registrada. Um eterno dilema entre escutar os gritos vorazes de uma sociedade impositiva ou ouvir um pouco o lado de dentro que costuma falar baixinho, porém com uma propriedade avassaladora.

    Ninguém melhor do que a gente sabe o que traz paz para o nosso coração. Nossos anseios, receios, amparos, refúgios, nosso abrigo da tempestade. Muito frequentemente, em uma bifurcação de caminhos, a gente hesita em adotar uma posição por medo de tomar uma decisão equivocada. É justamente nesse entremeio de indecisão que a influência externa começa a pesar nas nossas escolhas e que, cada vez menos, a gente faz aquilo que realmente nossa urgência e nossa essência carecem.

    O ponto chave desta questão é aprender a lidar melhor com os possíveis erros de percurso. Acontece que é muito mais fácil culpar o outro, que teoricamente decidiu pela gente, do que a si próprio quando alguma situação não sai conforme o planejado. Assumir o controle dos nossos passos exige mais do que maturidade, demanda desapego, abstração e uma boa dose de amor próprio. Significa estar de bem com seus valores, com seu processo de crescimento individual e, inevitavelmente, com o ego que inconscientemente busca a aprovação do mundo para isso ou aquilo. O detalhe que se perde sobre a vida é justamente esse, ela acontece apesar do que o resto do planeta acha e quem precisa lidar com as decorrências dos passos caminhados é a gente e mais ninguém.

    O que o outro diz, com todo respeito, é só o que o outro diz. Não reflete quem você é, o caminho que está percorrendo, muito menos para onde está indo. O que o outro diz, nada mais é do que uma tentativa frustrada de viver outra realidade na plenitude de poder errar, acertar, mover peças, trocar de tabuleiro sem arcar com as consequências reais, na pele mesmo, de escolher uma travessia que pode não ser a melhor. Viver baseado na opinião de um monte de gente que na maioria das vezes não sabe da missa a metade, é literalmente dar corda para o seu apego e involuntariamente, ao medo do outro. Além de não beneficiar nenhum dos lados, cria um vínculo de dependência entre quem você é e quem o outro acha que você deveria ser. Só você sabe se vale a pena dar uma segunda chance para o carinha que pisou na bola, só você sabe se sair do país será bom para o seu futuro profissional, só você sabe se virar a esquina ou seguir adiante preencherá seu coração da mais profunda paz. Da sua vida, quem sabe é você. O resto é especulação, palpite, intromissão, pra não dizer influência descarada no bem mais poderoso que o universo nos concedeu: o poder de escolha. Acho válido buscar conforto no colo da sua melhor amiga, ouvir a opinião do seu “brother” na mesa do bar e tirar proveito da vivência de alguém que a gente confia para fundamentar nossas ideias ou apenas expor uma nova visão sobre determinada situação. O que não vale é escutar toda conversa atravessada que aparece no nosso caminho como sendo verdade absoluta e inquestionável.

    Aprender a calar o mundo do lado de fora enquanto o coração dita a travessia. Saber ponderar, filtrar e acima de tudo, reconhecer aquilo que se encaixa nos nossos valores, na nossa vivência e aquilo que pode ser descartado. Liberdade mesmo, no revoar da palavra, é se soltar das amarras sociais que a falsa intimidade impõe e abrir a porta de casa para todos aqueles que se sentem ultrajados pelas nossas decisões, por livre-arbítrio, sair. A casa é minha e, com o perdão da palavra, eu pinto as paredes das cores que o meu coração quiser. E ele sempre tem as respostas por mais inconstantes que elas pareçam no momento. Enquanto houver amor, abrigo, paz e sossego o caminho é válido mesmo que o resto do universo diga o contrário. Qualquer “pitaco” que me guie para além dessa trajetória é meteoro reluzindo fora da minha órbita: passageiro, exagerado, equivocado e completamente sem importância.


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