• Você pode ter transformado o  amor da sua vida em tédio
  • Você pode ter transformado o


    amor da sua vida em tédio


    Era Juliana que amava Ricardo, e Ricardo que amava Juliana, até o dia em que o primeiro grande gesto de maleabilidade permitiu que o “eu te amo” inaugural ecoasse vazio e ensurdecedor ali no meio da sala, no meio do filme francês, no meio da incerteza. De um lado a expectativa, a espera, a ansiedade por um murmúrio que seja que pudesse justificar todo o constrangimento de expor assim, de alma lavada, todo o sentimento do mundo que estava guardado dentro da gente. Do outro o descaso, o suspiro blasé, o ar arrogante e soberbo de quem parece ter subido ao pódio para ganhar e se vangloriar de ter conquistado o primeiro prêmio. De repente, se ter a certeza da origem do sentimento do outro virou motivo de orgulho, de barganha, virou piada sem graça na boca egocêntrica de outro alguém. Oferecer de graça uma reciprocidade tão gostosa virou motivo de medo, de insegurança, virou receio de ter um amor cuidadosamente moldado, sendo tratado como adereço empoeirado visto apenas pelo espelho do banheiro.

    O problema é justamente quando o carinho da gente vira desprezo na travessia de outro alguém. Tudo era lindo, doce, singelo, até que um belo dia a certeza da existência daquele amor, fez com que toda aquela história ainda em construção se tornasse sem graça perante os olhos de quem está ali de mãos dadas com o nosso momento. E o ego tem uma mania feia de fazer isso com a gente, rechear de tédio e enfado tudo que um dia já foi incrivelmente surpreendente simplesmente porque não estava ao nosso alcance. Ter certeza nos dias de hoje, saber ao certo que o outro está “na nossa” deu uma autonomia absurda e totalmente desprezível para quem ainda não sabe o que significa a palavra amor: a liberdade de descartar um sentimento, unicamente porque ele agora se tornou acessível, disponível, e totalmente tangível dentro do nosso presente.

    Infelizmente, insegurança muitas vezes vem disfarçada de coragem. Tem gente que precisa mesmo se sentir desejado para alimentar aquela pontinha hesitante do ego, tem gente que gosta mesmo é de olhar para baixo ao invés do “olho no olho” para apalpar uma falsa sensação de superioridade, e tem gente que não sabe mesmo o quão gostoso, transformador, e pleno pode ser um amor de verdade cheinho de reciprocidade. Não tem muito que se fazer nesse caso, tem lições na vida da gente que só o tempo é capaz de consolidar. Pena do outro que não soube tirar proveito de uma das poucas certezas que a gente costuma ter na vida, pena do caminho, que vai ver muita gente entrar e sair dessa vivência por imaturidade e falta de tato com o carinho do outro. O princípio da incerteza é o que move o universo, mas é aquilo que a gente faz quando o sentimento deixa de ser novidade é o que move os relacionamentos.

    Por um mundo em que se ter a certeza de um afeto correspondido seja sinônimo de felicidade e não de desdenho. E que as pessoas saibam valorizar a reciprocidade como sendo um presente, e não um adorno que foi conquistado para o carro novo ou a prateleira recém-comprada do escritório. Ser vulnerável aos sentimentos do outro é lindo, sabe por quê? Porque esse tipo de gente que se abre para o mundo, para os amores, para as possibilidades de felicidade, são o tipo de gente que lá na frente enche toda a nossa vida de permanência. Eu admiro muito gente corajosa. Admiro mais ainda aquela coragem que crava um bom senso no peito e faz a gente ficar depois do primeiro “eu te amo” inesperado. O amor é feito de gente que fica. O resto é só pó e lembrança em cima de uma prateleira muda e esquecida: recheada de troféus, repleta de livros de sabedoria humana, mas vazia de tudo aquilo que preenche a nossa vida de amor e sorrisos. Porque a escolha de se estar junto é dos dois, mas a decisão de sair pela porta ao menor sinal de desprezo é minha, toda minha.

    danielle


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