• Não se contente com um amor de migalhas
  • Não se contente com um amor de migalhas


    Ouço uma briga de casal na vizinhança. Gritos, insultos, soluços. Ele passa pela portaria com o semblante de poucos amigos e alguns pertences na mochila. Ela aparece na janela com a cara de choro e uma música triste de fundo. Ela liga, ele volta e começa tudo de novo: outros gritos, outros insultos, outros soluços, mais uma mochila arrumada. Parecem viver um eterno ciclo de novas tentativas, cada vez mais frustradas.

    Uma amiga me liga no meio do expediente. O namorado a traiu pela décima primeira vez e ela precisava xingá-lo para mais alguém que não fosse ele mesmo; promete que dessa vez vai ser diferente: não o verá nunca mais. Alguns dias depois, uma foto dos dois abraçados na piscina. Outra traição, outros xingamentos, outro término, outra foto na piscina. Outro ciclo sem fim de tentativas frustradas.

    Minha tia divorciada namora o colega de trabalho: um cara meio grosseiro, sem muitas qualidades, que parece daquelas pessoas que não gostam de se divertir e nunca a chama carinhosamente. Ela se irrita, chora até pegar no sono, levanta, vai buscar uma cerveja e começa tudo de novo.

    Meu melhor amigo começou a namorar. A moça não gostava das músicas que ele ouvia e ligava todas as noites. “Eu não estou apaixonado”, ele dizia, enquanto mantinha o romance que só servia pra matar o tempo. Precisava amarrar o amor nos pés da mesa, ainda que esse amor não brindasse com ele numa sexta.

    Eis uma lição que não se pode deixar de observar na maioria dos relacionamentos modernos: as pessoas têm pavor da solidão. Querem um abraço, ainda que frígido, numa noite de sábado. Querem alguém, ainda que mal-humorado, pra dividir a pizza no domingo. Preferem a crueldade da solidão a dois à incerteza de uma vida a sós consigo.

    Elas se submetem a situações inimagináveis pelo terrível medo de parecerem solitárias aos olhos de um mundo que faz parecer que qualquer um pode ter a sorte de um amor tranquilo com sabor de fruta mordida. Atropelam-se, protelam o próprio autoconhecimento, boicotam a própria felicidade em nome de um conforto que, honestamente, me angustia.

    Talvez lhes falte um pouco de coragem. Encarar a vida sozinho não é pra todo mundo: nós buscamos no outro um abrigo para as nossas fobias, as nossas estranhezas, os nossos fantasmas. E o perigo é encontrar esse abrigo em alguém que não nos preenche – ao contrário, nos torna mais vazios a cada mentira que contamos a nós mesmos.

    Talvez lhes falte alguma inteligência pra perceber que nenhuma relação meia-boca equivale às oportunidades que a vida nos dá quando a gente a encara de peito aberto. Nenhuma relação meia-boca, nenhuma foto bonita nas redes sociais, nenhum coraçãozinho pulsante no wathsapp pela manhã equivale à sensação de resolver as nossas próprias angústias no lugar mais oculto de nossas almas. Talvez não entendam que a leveza só chega quando tiramos, sozinhos, o peso de nossas costas.

    Talvez lhes falte um pouco mais de tempo, um pouco mais de vida, um pouco mais dessas experiências com que só a dor nos presenteia para que percebam que a solidão tem um valor inestimável diante de relações que só nos afastam de nós mesmos. E que os amores tranquilos não habitam os corações inquietos.

    Talvez lhes falte um pouco de apreço por si mesmos para compreenderem que ninguém precisa se conformar com migalhas. O mundo está cheio de deliciosos banquetes para quem tem a habilidade de controlar a própria fome sem recorrer a um fast-food sem gosto e cheio de calorias vazias. Há muitos corações cheios a espera de quem, antes de tudo, se enche de si mesmo.

    E que, uma hora dessas, o amor chega, sem meios termos, meias-bocas, meia-felicidade. Ele chega inteiro. Mas antes, nos façamos inteiros, autênticos, felizes com nossas próprias certezas. A vida certamente deseja nos tratar bem. Ela só nos pede coragem.

    ass-nathalie


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