• Não, eu não perdi nada
  • Não, eu não perdi nada


    Eu me lembro muito bem, você estava usando aquela camisa listrada que te faz parecer menos magro e eu usava o meu vestido bege cheio de babados, aquele que era o seu predileto. (Ele está rasgado e velho, assim como a imagem desfocada – hoje é só penumbra – do que você se tornou pra mim).

    Havia outro bêbado do meu lado e ele falava que tinha viajado o mundo inteiro. Ele se vangloriava tristemente, você se lembra? Ele queria intimamente parecer feliz e viajado, mas ele era só um bêbado miserável, exatamente como eu. E nos olhos dele havia uma dor terrível, como se o seu rosto tivesse absorvido todas as desgraças que provavelmente já o destruíram.

    Eu evitava olhar aqueles olhos, como evitava olhar os seus ou olhar qualquer coisa que fosse. Eu estava enjoada, bêbada e decadente. Não era um porre feliz. Era o meu sussurro de confusão e de desistência. Eu não sabia, mas naquele dia eu já tinha desistido da gente.

    Pois é, o meu estado de embriaguez, mesmo deplorável, nunca pôde com a minha boa memória.

    Dentro do estabelecimento imundo havia uma TV minúscula exibindo qualquer filme tosco e dublado.

    Eu me lembro de ter encostado no balcão.E me lembro porque, exatamente nessa hora, me ocorreu um pensamento estúpido e quase irrepetível:

    Eu pensava que me parecia – como agora me pareço – com as mulheres perdidas que se encostam em balcões imundos às quatro da manhã. Não havia e não há nenhuma diferença entre nós: a maquiagem borrada, os cabelos desgrenhados, o corpo jovem e maltratado e ainda assim bonito, o sorriso amarelo e o ar perdido.

    Eu era e sou exatamente como aquelas mulheres que, aos quinze anos, eu considerava vulgar. E você considera até hoje, não negue.

    Lembro de sair cambaleando do balcão. O atendente tinha uma testa oleosa e uma cara de poucos amigos e me perguntou qualquer coisa que eu não me lembro e não respondi – estava ocupada caminhando até a calçada para que, quem sabe, ninguém visse o ápice da minha bêbada.

    Seu rosto girava diante dos meus olhos, sua expressão era ignóbil e ligeiramente irritante. Eu não podia mais controlar, e nem queria, pelo que me lembro. Um jato quente e nervoso me saía das entranhas e eu tentava miseravelmente manter o peso do meu corpo sobre a sandália alta, me apoiando num poste cinza.

    Na minha ignorância ébria, eu fora parar exatamente sob os holofotes da madrugada insana, exatamente no meio da calçada, ao alcance dos olhos cruéis dos homens que passavam em seus carros buzinando e gritando a minha desgraça.

    Não havia ninguém para segurar o meu cabelo longo que se misturava com o líquido fétido e etílico que se derramava na calçada. Ninguém que me dissesse que tudo bem, que todo mundo já vomitou na rua algum dia.

    Você não estava lá.

    Meus olhos caídos e já quase inúteis procuraram o seu rosto na rua quase vazia. Você estava escondido entre duas mesas sujas, rindo de canto e fingindo que não me conhecia.

    A onda de cólera que me ocorreu foi embora mais rápido do que deveria, aniquilada por aquilo que eu pensei ser paixão – eu já não consigo sequer pensar no que, de fato, aquilo era.

    Ainda me arrependo amargamente de ter entrado no seu carro e escutado as suas desculpas. Não foi um vacilo qualquer como esquecer o aniversário de namoro ou não reparar que eu cortei o cabelo. Foi a sua macheza fajuta e desprezível chutando a cara do que eu pensava ser amor. Foi a sua vergonha dessa mulher que eu sempre fui e ainda sou, que vomita na calçada e se encosta em balcões imundos.

    E todo esse remorso e essa vergonha é só por não ter percebido a coisa mais óbvia do mundo: Você é um imbecil.

    Quando pegamos aqueles sanduíches e saímos para o que seria o fim daquela noite, você ainda era um homem imaculado aos meus olhos, mesmo não tendo sequer segurado o meu cabelo como qualquer amigo minimamente prestativo faria.

    E antes que você me acuse de exagero, no clímax de sua ironia burra, aviso: isso é simbólico. Representa tudo o que você nunca foi, a não ser no meu imaginário fértil e quase ingênuo. Representa todo amor que você nunca me deu.

    É ridículo pensar que eu pude amar alguém que se envergonha da minha embriaguez, hoje, inclusive, muito mais habitual, mas eu confesso que é reconfortante olhar para trás e perceber o inegável:

    Você nunca valeu nada. Nem aquele sanduíche gorduroso que eu deixei estragar porque não conseguia comer.

    ass-nathalie


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